As nossas três casas

(Este post está no contexto de “A Plenitude”, quarto capítulo do livro A boa parte)

Foto do livro A boa parte. Permitida a reprodução citando a fonte..

As três dimensões da vida – esforço, devocional e milagre – têm três casas. No Antigo Testamento, elas são ilustradas pelo Sábado, o Templo e o Monte. Profanar o sábado equivale a desrespeitar o descanso ordenado por Deus, violentar as leis que regem nossa rotina de esforço ou trabalho. O Templo lembrava o devocional, a casa dos sacerdotes e escribas, o lugar de oração, o ponto de encontro de Deus com os homens. O monte representava a intervenção de Deus, do milagre onde, por exemplo, Moisés percebia a glória de Deus e recebeu dele as tábuas da Lei.

No Novo Testamento, essas casas são melhor representadas por Corpo, Igreja e Céu. O apóstolo Paulo explorou bastante a figura do corpo: “Portanto, irmãos, pelas misericórdias de Deus, peço que ofereçam o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Este é o culto racional de vocês” (Romanos 12:1 AAR). Já o Templo é quase sempre substituído pelo conceito de Igreja, e o Monte cedeu lugar à imagem de Céu, muito explorada, por exemplo, em Apocalipse. 

O valor dessas três “casas” já foi um grande debate teológico. Alguns púlpitos enfatizaram que o importante é garantir a salvação da alma, no céu; outros destacavam a justiça social, neste mundo, e ainda outros o equilíbrio das três. Como destaquei no livro A boa parte, Jesus ama a Marta, ama a Maria e ama a Lázaro, que ilustram essas três dimensões.

Nazaré lembra que Jesus é filho do homem, como Belém que ele é Filho de Davi e Jerusalém,  cidade santa e casa de paz, celebra o Filho de Deus. Jesus vivia plenamente o corpo, a igreja e o céu, mas teve que abrir mão de sua primeira casa em favor dos homens. Belém, casa de pão, onde nasceu, ou Nazaré, onde viveu até iniciar o seu ministério público, e onde enfrentou muitas lutas, tiveram que ser deixadas para trás quando iniciou seu ministério em Cafarnaum. Depois, teve que deixar Cafarnaum e seguir para Jerusalém. Esta renúncia ficou clara quando disse: “as raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Lucas 9:58). Ele não se referia à Igreja, muito menos ao Céu, mas à casa terrena. Sim, habitamos as três casas, mas precisamos nos preparar para a mudança. 

Jesus cuida do corpo, cura enfermidades, aceita o perfume derramado que traz conforto, cuidava de dormir, de alimentar-se, e ainda saciava a fome dos outros. Cuidou até de construir uma casa de amigos em Betânia, um oásis para dias trabalhosos.

Aos sábados, ia às sinagogas, como era seu costume. E foi numa destas rotinas que expulsou os ladrões da segunda casa, invocando Isaías 56: “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos”, muito diferente de alguns sermões de hoje que desvalorizam o Templo, empobrecendo o seu conceito, como se fosse apenas tijolos e pedras. O conceito de Templo é muito mais amplo; é encontro da congregação, assembleia solene, Igreja reunida, ministério, discipulado, pregação, ensino, casa de oração e, até, casa de Deus (1 Timóteo 3.15).

Jesus habita o terreno e o devocional e, também, o eterno. “Vocês erram porque não conhecem as Escrituras, nem o poder de Deus”, disse Jesus a quem questionou a existência de nossa terceira casa (os saduceus não acreditavam na ressurreição – Marcos 12.24). Afinal, disse Jesus, o Deus do antepassado Abraão é Deus dos vivos, ou seja, o céu era uma realidade e estava interferindo na rotina de Jesus. 

Essas três casas são, todas, propriedade e habitação dos homens e de Deus e, portanto, terrenas e eternas: “Meus sábados”, “Minha casa de oração”, “Meu Monte Santo”. Antes que você me questione sobre a morte do corpo, preciso lembrar que ele será ressuscitado. 

Na casa que chamamos “nossa” ele espera ser convidado e chamá-la de templo do seu Espírito. Na casa que chamamos “dele”, seremos seus convidados. Na casa que chamamos “assembleia dos santos”, ele a chama de “minha igreja”. Sim, na graça todos nos sentimos em casa, mesmo sendo hóspedes.

Juracy Bahia

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